Experimente ouvir Mahalia Jackson cantando The Upper Room, Joshua Fit The Batlle of Jericho ou We Shall Overcome, e depois me diga se há alguma semelhança entre o que você acabou de ouvir e o que é produzido pela música evangélica - ou católica - feita no Brasil. Nada.
A semelhança é a mesma encontrada entre um navio e um velocípede: ambos se locomovem, servem de transporte e vão de um ponto a outro, mas cada um em seu propício ambiente. Gospel é coisa séria, é termo que não deve ser pronunciado em vão, pois se corre o risco de, ao mencioná-lo, provocar a fúria dAquele a quem tal gênero musical homenageia. Heresias à parte, retorno ao que interessa: o som de Mahalia Jackson, símbolo de uma música de oferenda e louvor levada às conseqüência últimas por uma voz poderosíssima, de longo alcance, mas que, num primeiro momento de sua carreira, sofreu com os puristas, que a condenavam por popularizar demais temas religiosos. Uma tolice, e nem é necessário dizer por quê. Temiam também que ela se tornasse uma Rosetta Tharpe, pioneira da gospel music, considerada bluseira em excesso e avançadinha demais.
Antes de se tornar uma estrela da CBS, Mahalia já havia mostrado aos europeus como se cantava, fazendo sucesso na França e na Escandinávia, mostrando aos habitantes desta última que Deus Pai sabia mais das coisas que Odin. Pela Columbia Mahalia gravou, com The Duke & Orchestra, em 1958, o emblemático disco Black, Brown and Beige, uma suíte jazzística que versava sobre a escravidão nos EE.UU. e na qual o trompetista Clark Terry e o saxman Paul Gonsalves fazem o diabo (desculpem-me a expressão) - além de Duke e Mahalia, naturalmente. No mesmo ano, participa do tradicional festival de Newport, acompanhada pelo piano soul de Mildred Falls, pelo baixista Tom Bryant, irmão do famoso pianista Ray, e pelo organista Lilton Mitchell. Atenção especial às faixas A City Called Heaven e Jesus Met the Woman at The Well.
Se você não sabe o que é o domínio completo do vibrato, é só ouvir Mahalia: ela faz esse recurso parecer uma elevação quase epifânica, proporcionando às frases seu vigor espiritual. Sente-se a paixão em cada inflexão, numa performance que os críticos consideram a melhor de sua carreira. Como a música gospel relaciona-se (também) à condição escrava, é natural que Mahalia Jackson expusesse, em suas interpretações, a dor secular dos negros norte-americanos, mesmo que o conteúdo das canções que interpretava não declarasse frontalmente o teor social. Foi ela que interpretou Take My Hand, Prescious Lord, composição de Thomas Dorsey - o pai da gospel song -, no funeral de Martim Luther King. Como outra grande dama da música - Ella Fitzgerald -, Mahalia morreu por complicações diabéticas - aos 60 anos.

